Iniciativas solidárias do DF são expostas em SP

ECONOMIA » Focados na cooperação, empreendimentos de economia solidária ganharam espaço no DF.  Mostra, em SP, apresenta 22 projetos locais.


Organizar trabalhadores sob decisões próprias e em benefício comum são ações essenciais da economia solidária, empreendimentos em que todos os envolvidos definem os atos do grupo e têm ganhado espaço no país. De acordo com Ministério do Trabalho, o DF abriga 386 iniciativas deste tipo. Projetos locais serão apresentados na 1ª Mostra Conexão Solidária, promovida em São Paulo pela Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS), nos quatro últimos dias do mês. As iniciativas distritais serão levadas pela Central das Cooperativas de Materiais Recicláveis (Centcoop-DF).

Com 22 empreendimentos inscritos no evento, a central reúne o mesmo número de cooperativas e representa 3,5 mil trabalhadores. Nas cooperativas, produção e distribuição são organizadas igualitariamente. Diferente de um modelo hierárquico, as decisões são tomadas coletivamente, de modo democrático. Na Centcoop, por exemplo, cada uma das cooperativas mantém um representante no Conselho Gestor, responsável pelas escolhas do grupo. A central também possui um fundo social para investimentos, constituído pela poupança de R$0,02 por cada quilo de material vendido. Dois anos após a criação, em 2006, as remunerações dos filiados cresceram pelo menos 30%.

A cooperação entre os trabalhadores garantiu o crescimento, segundo presidente da Centcoop, Rôney Alves da Silva. “Quando passamos a reunir os materiais, aumentamos nosso poder de barganha e conseguimos melhores preços. Assim, melhoramos acentuadamente a renda dos catadores. Outro efeito benéfico foi a maior politização da categoria”, explica. Os ganhos da central podem afetar até 15 mil pessoas, quando considerados os núcleos familiares dos catadores. “O lucro que apenas um megaempresário receberia é diluído para várias famílias.”

Para o assessor executivo da ADS, Almir Alves, a economia solidária vem se firmando como importante setor da economia brasileira, mas precisa superar o comércio interno e atingir outros agentes do mercado. “Em pesquisa com 200 empresas, 95% demonstraram interesse em produtos deste tipo de empreendimento”, conta. Segundo ele, além de reforçar o contato entre os participantes, a mostra busca integrar as iniciativas solidárias com o empresariado. “É preciso criar um lado de informação, para que os dois lados conheçam suas potencialidades.” Neste ano, o evento traz projetos em áreas como reciclagem, confecção, artesanato, indústria e alimentação. “Nas próximas edições, a agricultura familiar deve ganhar espaço”, adianta.

Parceria exemplar

No DF, a Centcoop dá exemplo de parceria com empresas. Desde a criação da central, as cooperativas vendem materiais para a Capital Recicláveis. De acordo com o gerente administrativo, Jorge Ribeiro, a empresa recebe em média 400 toneladas de material diariamente. “Compramos cerca de 40% de cooperativas”, informa. “Como muitas vezes não possuem os recursos necessários, fazemos a triagem. Em Brasília, não há reciclagem, só coleta.” O processo exige muita água, recurso escasso no DF. Por isso, os materiais costumam ser processados em regiões litorâneas.

Um dos projetos selecionados para a  mostra é da empresa e demonstra como o reaproveitamento pode agregar valor ao material recolhido. Ao ser coletado, um quilo de tipos variados de papel vale R$0,04. Após ser selecionado, caso se trate de papel branco, o valor sobe para R$0,25. A mesma quantidade, quando prensada em um fardo, custa R$0,30. Outro exemplo: um quilo de pet misturado custa R$0,10 no mercado. Se a mesma quantia de incolor for selecionada, o valor é de R$0,60 e de R$0,70, quando prensada. Moído o mesmo quilo de pet pode ser vendido por R$1,75.

De todos para todos

Empreendimentos solidários ajudam a conciliar ganhos econômicos com necessidades sociais devido às soluções avaliadas em grupo, segundo a professora de Sociologia Christiane Girard, da Universidade de Brasília (UnB) . “É uma via política para sair da caridade e mobilizar a sociedade”, salienta. De acordo com o primeiro e mais recente mapeamento nacional da economia solidária, realizado pelo Ministério do Trabalho em 2007, no DF lideram os grupos informais (222), associações (120) e cooperativas (33). “Para formalização, é necessário uma quantidade mínima de cooperados, por isso o número alto, e também há uma tradição de informalidade, mas esses dois aspectos devem ser mudados”, pondera Girard.

Segundo ela, as iniciativas solidárias ganharam força há cerca de 15 anos atrás, com o agravamento do desemprego, e possui uma origem comunitária no Brasil. “As pessoas passam a se organizar para se ajudar nas dificuldades, numa solidariedade democrática. Todos estão no mesmo barco”, sintetiza. “Não se juntam apenas para se proteger, mas também para projetar a voz de seus interesses”, acrescenta. “É um movimento internacional, diversos iniciativas têm pensado em modelos de comércio justo, sem exploração do ser humano, com produção e distribuição mais equilibradas.”

Isaías Monteiro

Organização própria

De acordo com o Ministério do Trabalho, algumas características definem os empreendimentos da economia solidária.

Cooperação: interesses e objetivos comuns, união de esforços e capacidades, partilha de propriedade, de resultados e da responsabilidade

Autogestão: os participantes gerenciam as organizações, em processos de trabalho, definições estratégicas e cotidianas dos empreendimentos.

Dimensão Econômica: uma das motivações para união de esforços, envolve viabilidade comercial junto de aspectos culturais, ambientais e sociais.

Solidariedade: justa distribuição dos resultados, oportunidades de desenvolvimento de capacidades, melhoria das condições, entre outros.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: