Construção sustentável engatinha no DF

MEIO AMBIENTE » Sem incentivo ou cobrança,  DF se mantém atrás de outros pontos do país em sustentabilidade de obras. Ainda falta legislação e fiscalização.

Isaías Monteiro

Apesar de abrigar o primeiro bairro verde do país, o Distrito Federal ainda carece de legislação para a preservação ambiental e investimentos na construção sustentável. Embora os impactos ambientais tenham sido considerados para construção do Setor Noroeste, o conjunto habitacional é o único com tal exigência. “Nos demais setores não há, isso já deveria ter sido iniciado”, admite o secretário de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, Cassio Taniguchi.

Segundo ele, dois projetos apoiados pelo governo empregam conceitos de construção sustentável. Placas solares, usadas para o aquecimento de chuveiro, são utilizadas em 54 casas financiadas pela Caixa Econômica Federal. De acordo com Taniguchi, um novo centro administrativo, a ser iniciado até o fim do ano em Taguatinga, também possuirá recursos como ventilação cruzada, para reduzir o gasto de energia elétrica com ar condicionado, e coleta de água da chuva nos prédios. “Esses projetos podem levar a criação de leis sobre o tema”, acredita.

No DF, ainda não há fiscalização da origem dos materiais de construção para obras públicas – medida adotada em cidades como São Paulo, onde a conduta ambiental do fornecedor é considerada. De acordo com Taniguchi, isso se deve à proposta da secretaria. “É melhor conscientizarmos sobre os benefícios da preservação do meio ambiente e de se construir um prédio verde”, afirmou. “O custo inicial pode subir de 5% a 7%, mas isso é recuperado com a economia na manutenção”, calcula. Para ele, ainda é necessária a criação de incentivos físicos e fiscais.

Moradias ilegais, como invasões, prejudicam a implementação de projetos, de acordo com Taniguchi. “As pessoas estão começando a entender, agora, que devem cumprir a lei no DF, devemos correr atrás do prejuízo”, concluiu. No entanto, o centro das emissões de gás estufa vêm da zona urbana. “Pelo menos 80% dos gases de efeito estufa vêm das cidades, então temos de focar nos esforços nelas”, ressaltou. Nas cidades, as ações de preservação se concentram na conservação de áreas originais, com canteiros de vegetação nativa, e no transporte público, pela busca de combustíveis menos poluentes e construção de ciclovias.

O aumento da procura por materiais menos danosos ao meio ambiente também pode incentivar a produção do setor. “Os primeiros prédios vão favorecer o aparecimento de indústrias e há espaço para iniciativas individuais”, apontou.

Balança ambiental

Para Raquel Naves Blumenschein, coordenadora do Laboratório do Ambiente, Construção, Inclusão e Sustentabilidade da Universidade de Brasília, as compras de materiais devem avaliar questões técnicas, sociais e ambientais. “A responsabilidade está com quem compra”, sintetizou. Segundo ela, a construção sustentável respeita os diferentes níveis de sustentabilidade e busca atendê-los em seus processos. “Temos que avançar, a indústria de construção já está nesse caminho. Ainda é tímido, mas é algo sem volta”.

Três etapas compõem o processo da construção sustentável. Primeiro, considera-se o setor de suprimentos, onde são produzidos os materiais. Depois, o processo construtivo, quando a obra é executada. A seguir, a parte auxiliar, dedicada a serviços e pesquisas. Em todo o trajeto, é necessário considerar o desempenho ambiental do ciclo de vida dos materiais, pesando o que a produção retira e retorna à natureza, como toxinas e poluentes.

Desafios à produção

Ajustar projetos e encontrar materiais adequados são os principais desafios na execução das obras, de acordo com Tereza Cristina Esmeraldo, diretora do Conselho de Estudos, Programas e Monitoramento da Qualidade Ambiental do Instituto Brasília Ambiental (Ibram). “A construção sozinha tem um impacto enorme no meio ambiente. Para torná-la sustentável é preciso diminuir todos os seus diversos danos”, explica.

As escolhas da construção ambiental começam na planta da obra. “Desde o início devem ser pensadas decisões, como projeto arquitetônico que aproveite a luz natural”, conta. Materiais como barro geram equilíbrio da temperatura ambiental e evitam o uso de ar condicionado e poupam energia elétrica. “Sistemas tradicionais garantem esse conforto térmico”.

Também para ela, a baixa demanda da construção civil ainda é um obstáculo. “Se houvesse mais procura, a indústria produziria. “Temos um parque industrial pequeno, que ainda trabalha com materiais convencionais”, ressaltou. Dentre os materiais empregados nas obras sustentáveis, está a madeira plástica, que pode ser usada em vigas, pilares e bancos. Os projetos também usam mecanismos para o reúso da água para fins não potáveis, que pode ser usada para fins domésticos, mas não bebida.

Segundo ela, atualmente o Ibram cobra medidas de preservação ambiental, como uso de pavimentação permeável estacionamentos nos licenciamentos de obras. “São decisões tomadas hoje e que garantem tranquilidade no futuro. O mais importante está na decisão da população e dos governos, é preciso se dispor a fazer isso acontecer”.


Saiba mais

Além do modo de construção e do uso da obra, a construção sustentável considera o ciclo de vida dos materiais – pesa o que a produção deles retira e retorna à natureza. Conheça exemplos.

Modos

– Reduzir os gastos de recursos naturais
– Reaproveitar materiais de demolições
– Aproveitar recursos locais

Materiais

– Tijolos de barro e cimento, feito a partir de indústrias siderúrgicas
– Madeira certificada ou plástica
– Adobe

1 Response so far »


Comment RSS · TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: