Arquivo para outubro, 2009

Iniciativas solidárias do DF são expostas em SP

ECONOMIA » Focados na cooperação, empreendimentos de economia solidária ganharam espaço no DF.  Mostra, em SP, apresenta 22 projetos locais.


Organizar trabalhadores sob decisões próprias e em benefício comum são ações essenciais da economia solidária, empreendimentos em que todos os envolvidos definem os atos do grupo e têm ganhado espaço no país. De acordo com Ministério do Trabalho, o DF abriga 386 iniciativas deste tipo. Projetos locais serão apresentados na 1ª Mostra Conexão Solidária, promovida em São Paulo pela Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS), nos quatro últimos dias do mês. As iniciativas distritais serão levadas pela Central das Cooperativas de Materiais Recicláveis (Centcoop-DF).

Com 22 empreendimentos inscritos no evento, a central reúne o mesmo número de cooperativas e representa 3,5 mil trabalhadores. Nas cooperativas, produção e distribuição são organizadas igualitariamente. Diferente de um modelo hierárquico, as decisões são tomadas coletivamente, de modo democrático. Na Centcoop, por exemplo, cada uma das cooperativas mantém um representante no Conselho Gestor, responsável pelas escolhas do grupo. A central também possui um fundo social para investimentos, constituído pela poupança de R$0,02 por cada quilo de material vendido. Dois anos após a criação, em 2006, as remunerações dos filiados cresceram pelo menos 30%.

A cooperação entre os trabalhadores garantiu o crescimento, segundo presidente da Centcoop, Rôney Alves da Silva. “Quando passamos a reunir os materiais, aumentamos nosso poder de barganha e conseguimos melhores preços. Assim, melhoramos acentuadamente a renda dos catadores. Outro efeito benéfico foi a maior politização da categoria”, explica. Os ganhos da central podem afetar até 15 mil pessoas, quando considerados os núcleos familiares dos catadores. “O lucro que apenas um megaempresário receberia é diluído para várias famílias.”

Para o assessor executivo da ADS, Almir Alves, a economia solidária vem se firmando como importante setor da economia brasileira, mas precisa superar o comércio interno e atingir outros agentes do mercado. “Em pesquisa com 200 empresas, 95% demonstraram interesse em produtos deste tipo de empreendimento”, conta. Segundo ele, além de reforçar o contato entre os participantes, a mostra busca integrar as iniciativas solidárias com o empresariado. “É preciso criar um lado de informação, para que os dois lados conheçam suas potencialidades.” Neste ano, o evento traz projetos em áreas como reciclagem, confecção, artesanato, indústria e alimentação. “Nas próximas edições, a agricultura familiar deve ganhar espaço”, adianta.

Parceria exemplar

No DF, a Centcoop dá exemplo de parceria com empresas. Desde a criação da central, as cooperativas vendem materiais para a Capital Recicláveis. De acordo com o gerente administrativo, Jorge Ribeiro, a empresa recebe em média 400 toneladas de material diariamente. “Compramos cerca de 40% de cooperativas”, informa. “Como muitas vezes não possuem os recursos necessários, fazemos a triagem. Em Brasília, não há reciclagem, só coleta.” O processo exige muita água, recurso escasso no DF. Por isso, os materiais costumam ser processados em regiões litorâneas.

Um dos projetos selecionados para a  mostra é da empresa e demonstra como o reaproveitamento pode agregar valor ao material recolhido. Ao ser coletado, um quilo de tipos variados de papel vale R$0,04. Após ser selecionado, caso se trate de papel branco, o valor sobe para R$0,25. A mesma quantidade, quando prensada em um fardo, custa R$0,30. Outro exemplo: um quilo de pet misturado custa R$0,10 no mercado. Se a mesma quantia de incolor for selecionada, o valor é de R$0,60 e de R$0,70, quando prensada. Moído o mesmo quilo de pet pode ser vendido por R$1,75.

De todos para todos

Empreendimentos solidários ajudam a conciliar ganhos econômicos com necessidades sociais devido às soluções avaliadas em grupo, segundo a professora de Sociologia Christiane Girard, da Universidade de Brasília (UnB) . “É uma via política para sair da caridade e mobilizar a sociedade”, salienta. De acordo com o primeiro e mais recente mapeamento nacional da economia solidária, realizado pelo Ministério do Trabalho em 2007, no DF lideram os grupos informais (222), associações (120) e cooperativas (33). “Para formalização, é necessário uma quantidade mínima de cooperados, por isso o número alto, e também há uma tradição de informalidade, mas esses dois aspectos devem ser mudados”, pondera Girard.

Segundo ela, as iniciativas solidárias ganharam força há cerca de 15 anos atrás, com o agravamento do desemprego, e possui uma origem comunitária no Brasil. “As pessoas passam a se organizar para se ajudar nas dificuldades, numa solidariedade democrática. Todos estão no mesmo barco”, sintetiza. “Não se juntam apenas para se proteger, mas também para projetar a voz de seus interesses”, acrescenta. “É um movimento internacional, diversos iniciativas têm pensado em modelos de comércio justo, sem exploração do ser humano, com produção e distribuição mais equilibradas.”

Isaías Monteiro

Organização própria

De acordo com o Ministério do Trabalho, algumas características definem os empreendimentos da economia solidária.

Cooperação: interesses e objetivos comuns, união de esforços e capacidades, partilha de propriedade, de resultados e da responsabilidade

Autogestão: os participantes gerenciam as organizações, em processos de trabalho, definições estratégicas e cotidianas dos empreendimentos.

Dimensão Econômica: uma das motivações para união de esforços, envolve viabilidade comercial junto de aspectos culturais, ambientais e sociais.

Solidariedade: justa distribuição dos resultados, oportunidades de desenvolvimento de capacidades, melhoria das condições, entre outros.

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Construção sustentável engatinha no DF

MEIO AMBIENTE » Sem incentivo ou cobrança,  DF se mantém atrás de outros pontos do país em sustentabilidade de obras. Ainda falta legislação e fiscalização.

Isaías Monteiro

Apesar de abrigar o primeiro bairro verde do país, o Distrito Federal ainda carece de legislação para a preservação ambiental e investimentos na construção sustentável. Embora os impactos ambientais tenham sido considerados para construção do Setor Noroeste, o conjunto habitacional é o único com tal exigência. “Nos demais setores não há, isso já deveria ter sido iniciado”, admite o secretário de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, Cassio Taniguchi.

Segundo ele, dois projetos apoiados pelo governo empregam conceitos de construção sustentável. Placas solares, usadas para o aquecimento de chuveiro, são utilizadas em 54 casas financiadas pela Caixa Econômica Federal. De acordo com Taniguchi, um novo centro administrativo, a ser iniciado até o fim do ano em Taguatinga, também possuirá recursos como ventilação cruzada, para reduzir o gasto de energia elétrica com ar condicionado, e coleta de água da chuva nos prédios. “Esses projetos podem levar a criação de leis sobre o tema”, acredita.

No DF, ainda não há fiscalização da origem dos materiais de construção para obras públicas – medida adotada em cidades como São Paulo, onde a conduta ambiental do fornecedor é considerada. De acordo com Taniguchi, isso se deve à proposta da secretaria. “É melhor conscientizarmos sobre os benefícios da preservação do meio ambiente e de se construir um prédio verde”, afirmou. “O custo inicial pode subir de 5% a 7%, mas isso é recuperado com a economia na manutenção”, calcula. Para ele, ainda é necessária a criação de incentivos físicos e fiscais.

Moradias ilegais, como invasões, prejudicam a implementação de projetos, de acordo com Taniguchi. “As pessoas estão começando a entender, agora, que devem cumprir a lei no DF, devemos correr atrás do prejuízo”, concluiu. No entanto, o centro das emissões de gás estufa vêm da zona urbana. “Pelo menos 80% dos gases de efeito estufa vêm das cidades, então temos de focar nos esforços nelas”, ressaltou. Nas cidades, as ações de preservação se concentram na conservação de áreas originais, com canteiros de vegetação nativa, e no transporte público, pela busca de combustíveis menos poluentes e construção de ciclovias.

O aumento da procura por materiais menos danosos ao meio ambiente também pode incentivar a produção do setor. “Os primeiros prédios vão favorecer o aparecimento de indústrias e há espaço para iniciativas individuais”, apontou.

Balança ambiental

Para Raquel Naves Blumenschein, coordenadora do Laboratório do Ambiente, Construção, Inclusão e Sustentabilidade da Universidade de Brasília, as compras de materiais devem avaliar questões técnicas, sociais e ambientais. “A responsabilidade está com quem compra”, sintetizou. Segundo ela, a construção sustentável respeita os diferentes níveis de sustentabilidade e busca atendê-los em seus processos. “Temos que avançar, a indústria de construção já está nesse caminho. Ainda é tímido, mas é algo sem volta”.

Três etapas compõem o processo da construção sustentável. Primeiro, considera-se o setor de suprimentos, onde são produzidos os materiais. Depois, o processo construtivo, quando a obra é executada. A seguir, a parte auxiliar, dedicada a serviços e pesquisas. Em todo o trajeto, é necessário considerar o desempenho ambiental do ciclo de vida dos materiais, pesando o que a produção retira e retorna à natureza, como toxinas e poluentes.

Desafios à produção

Ajustar projetos e encontrar materiais adequados são os principais desafios na execução das obras, de acordo com Tereza Cristina Esmeraldo, diretora do Conselho de Estudos, Programas e Monitoramento da Qualidade Ambiental do Instituto Brasília Ambiental (Ibram). “A construção sozinha tem um impacto enorme no meio ambiente. Para torná-la sustentável é preciso diminuir todos os seus diversos danos”, explica.

As escolhas da construção ambiental começam na planta da obra. “Desde o início devem ser pensadas decisões, como projeto arquitetônico que aproveite a luz natural”, conta. Materiais como barro geram equilíbrio da temperatura ambiental e evitam o uso de ar condicionado e poupam energia elétrica. “Sistemas tradicionais garantem esse conforto térmico”.

Também para ela, a baixa demanda da construção civil ainda é um obstáculo. “Se houvesse mais procura, a indústria produziria. “Temos um parque industrial pequeno, que ainda trabalha com materiais convencionais”, ressaltou. Dentre os materiais empregados nas obras sustentáveis, está a madeira plástica, que pode ser usada em vigas, pilares e bancos. Os projetos também usam mecanismos para o reúso da água para fins não potáveis, que pode ser usada para fins domésticos, mas não bebida.

Segundo ela, atualmente o Ibram cobra medidas de preservação ambiental, como uso de pavimentação permeável estacionamentos nos licenciamentos de obras. “São decisões tomadas hoje e que garantem tranquilidade no futuro. O mais importante está na decisão da população e dos governos, é preciso se dispor a fazer isso acontecer”.


Saiba mais

Além do modo de construção e do uso da obra, a construção sustentável considera o ciclo de vida dos materiais – pesa o que a produção deles retira e retorna à natureza. Conheça exemplos.

Modos

- Reduzir os gastos de recursos naturais
- Reaproveitar materiais de demolições
- Aproveitar recursos locais

Materiais

- Tijolos de barro e cimento, feito a partir de indústrias siderúrgicas
- Madeira certificada ou plástica
- Adobe

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